CHEGUE NA PAZ

17 de nov. de 2019


A MULHER SELVAGEM 

Toda mulher que não se domesticou e mantém-se em harmonia com sua essência, é uma mulher livre. Livre das etiquetas que a sociedade lhe impõe. Livre para correr pelas pradarias e florestas pisando descalça pelos terrenos que a ensina a conhecer sua jornada. Percebe espinhos, perfumes e cores.

A mulher selvagem voa junto aos grandes gaviões aprendendo a observar a vida atentamente, rastreando como a onça os inimigos e os alimentos para que sua alma cumpra seus contratos. Vive a magia da sutileza ao felinamente se espreguiçar à beira rio, se encantando com sua própria figura delineada pelo sol e sombra, sabendo que são partes de si mesma.

A mulher selvagem tem nos olhos os ensinamentos da coruja, que aprende ao observar a noite escura sem medo e é senhora absoluta de si.

A mulher selvagem tem a força dos grandes mamíferos, que pisam firme sobre a terra. Ela é também a dançarina da noite e uiva, qual loba espreitando a lua.

A mulher selvagem vibra com as ervas que encontra e se cobre de proteção e rezas.

A mulher selvagem não guerreia, pois, tem a certeza de que tudo acontece na colaboração de todos os seres.

A mulher selvagem rola feito felina que é no orvalho que repousa nas folhas, e faz disso sua medicina.

A mulher selvagem solta os cabelos e neles guarda as memórias dos dias já vividos mantendo assim sua força.

A mulher selvagem quando necessário, trança os mesmos cabelos prendendo a tristeza e no alto da colina os solta, pedindo ao vento que leve embora ao mais longínquo tempo, deixando apenas as lições aprendidas.

A mulher selvagem não é de todo brava nem de todo calma. É a exata medida do que pede sua alma desperta. Se precisar rugir, vai rugir. Uivar, vai fazê-lo, e saberá docemente cantar como os sabiás laranjeira nas primaveras floridas.

A mulher selvagem se multiplica em muitos assim a jamais perder-se de quem é.

A mulher selvagem pinta a face e dança na fogueira...entrega ao sagrado fogo o que precisa transmutar, e não se sente vazia com isso. A plenitude a chama a cada respiração.

A mulher selvagem é a exata medida do desvario. Sem medo ou culpa por sua inconstância...feita de fases, sabe-se um ser não linear, e se honra por isso.

A mulher selvagem olha de frente, e quem sustenta seu olhar encontra constelações de amor dançando em sua íris. Ou se entrega, ou foge com medo de sua intensidade.

A mulher selvagem dança com lobos e caça com as onças, nada com os botos, voa com os gaviões e condores, hiberna com os ursos, brinca com os beija flores, serpenteia sua veste e se esconde por entre as folhagens...a mulher selvagem é tudo o que ela se permite ser.

A mulher selvagem aprende e compartilha o que sabe, fortalecendo as companheiras de jornada.

A mulher selvagem encontra seu lugar de poder e ali faz morada, mas não constrói muros, eleva pontes. Se faz elo.

A mulher selvagem apenas É, sem nada precisar provar.

A mulher selvagem tem um pouco de Ísis, de Madalena, de Maria, de Iara, de Jurema... e nessa mistura encontra muito dela mesma!

Rose Kareemi Ponce