"DEPOIS DESSA RELAÇÃO,
NÃO ME RECONHEÇO MAIS."
Quando busca-se compreender o que há por trás do abuso relacional infligido por perversos narcisistas sobre seus alvos, é preciso ter uma certeza: cada comportamento desses seres tem uma explicação e fazem parte de um quebra-cabeças. Talvez por isso tudo seja tão parecido ou repetitivo quando nos deparamos com relatos de abuso.
Narcisistas patológicos se apresentam para o mundo vestidos de seu falso "self" . É como se, por exemplo, eu seu fosse muito baixinha e não aceitasse isso, crendo que sou inadequada e que não poderia ser amada com aquela estatura, então passasse a andar por aí com uma imagem imaginária de mim mesma como uma mulher muito alta e, logo, passível de ser amada.
Em outras palavras, a pessoa narcisista sente uma grande vergonha e inadequação do verdadeiro "self" e por isso acreditam que se alguém souber quanto ela é "imperfeita", não receberá amor ou aprovação, levando-os a caminhar por aí com uma máscara, uma pessoa inventada, com uma noção de importância pessoal fora da realidade, grandiosidade, necessidade de admiração, de ser favorecido, arrogância, inveja e falta de empatia.
Assim sendo, você lida sempre com a imagem criada dessa pessoa e, portanto, com um ser vazio, sem uma identidade própria. Vivem para observar e depois fazer a mímica de outras pessoas. Talvez isso explique as escolhas por parceiros bonitos, inteligentes, bem sucedido ou com uma identidade muito interessante, pois é exatamente sua identidade, suas características e suas qualidades que chamam a atenção do perverso narcisista.
Pessoas narcisistas patológicas procuram nos outros características e qualidades que elas não possuem, que invejam e que, portanto, querem para si. Como não podem arrancar de você essas características, elas copiam. Passam a se comportar com hábitos seus, se apoderar de ideias suas, repetir seus sonhos, suas ambições como se delas fossem, não raro indo realizá-los na companhia de outra pessoa, apenas para mostrar a você que aquele sonho não poderia se realizar com uma "pessoa como você".
Ao mesmo tempo que se apoderam de suas qualidades e ideias, passam a projetar sobre você todas as suas características malignas. Se são agressivas, chamarão você de agressivo. Se têm o habito de trair, acusarão você de ter amantes, se são mentirosas, dirão que você conta mentiras.
Usar a projeção tem dois objetivos. Primeiramente, se livrar do peso de carregar seus próprios defeitos, transferindo-os para sua vítima, de modo que esta passe a se sentir louca, mentirosa, agressiva e quanto mais quiser projetar.
A questão em torno da projeção ou identificação projetiva é mais complexa que isso, é claro, e merece um texto dedicado, mas para sintetizar, vale um exemplo:
Se eu lhe chamar de mentiroso constantemente, em pouco tempo você começará a omitir ou mentir sobre as coisas mais insignificantes do cotidiano para evitar conflito e, logo, passará a sentir-se realmente como um mentiroso. Se eu disser a você, pessoa calma e equilibrada que você uma pessoa louca e agressiva, isto vai suscitar em você um incomodo tamanho, que você reagirá com raiva, agressividade e desequilíbrio. Perversos sabem disso e usam a projeção para transformar seu alvo naquilo que na realidade eles mesmos são.
Além da projeção, narcisistas usam uma técnica que eu vou chamar de "apoderamento da identidade". Pare um minuto para pensar. O que, além de nossas características subjetivas (valores, caráter, etc), forma nossa identidade, nossa personalidade e o modo que nos apresentamos para o mundo?
Vou dar alguns fatores externos ou objetivos formadores de nossa identidade:
*O modo que nos vestimos, cortamos o cabelo, nos maquiamos.
*Os amigos que escolhemos, nossos hobbies e prazeres.
*O modo que falamos, gesticulamos, nossas expressões.
*O trabalho que fazemos, o que estudamos.
*Nossos hábitos e planos.
Agora parem para pensar em como essas coisas foram desde o início atacadas pela pessoa perversa narcisista que você conheceu. Sim, paradoxalmente, são essas coisas que os atrai, mas como não podem tê-las para si, tentam destruí-las. Por que? Porque se sentem agredidos pela "superioridade" que, silenciosamente, ele enxerga em você.
Fazem isso sorrateiramente, com inocentes pedidos: "Ah, põe tal roupinha para mim! Suas roupas te envelhecem, com essa você fica linda." "Ah, não passe essa maquiagem, menos é mais!" "Seus amigos não prestam." "Sua família aproveita de você. Não me sinto à vontade com eles." "Ah, não corte ou penteie seu cabelo assim. Você é tão linda desse outro jeito." "Não gosto de como fala mexendo com as mãos. É vulgar." "Nesse trabalho só te exploram. Pare de trabalhar que eu darei tudo a você" "Você vai jogar com seus amigos e me deixa sozinha porque não me ama." "Sei que o carro você prefere vermelho, mas branco combina mais com você." "Você faz esse curso para ter desculpa para sair com todo mundo da escola ou para não me dar mais atenção." "Se quiser sair com suas amigas, saia, mas mulher de respeito não frequenta barzinho." e etc.
Começa sutil mas, à medida que vai percebendo que você cede a seus pedidos e vai se modificando, as exigências ficam cada dia maiores, mais incisivas e agressivas até que você se olha no espelho e não se reconhece mais. Esses tipos sugadores roubam-lhe as características e gostos enquanto lhe presenteiam com atenção exagerada, presentes, declarações de amor, mantendo-lhe ocupada(o) com a relação e mais nada.
Assim, copiando você, projetando seus defeitos e roubando sua identidade, a pessoa perversa narcisista lhe faz perder por completo a noção de quem você é. E esse não reconhecer-se mais, torna-se um não reconhecer-se sem aquela pessoa, daí a enorme dificuldade de romper e, uma vez rompido, o esforço homérico para reencontrar a própria identidade e superar o medo de jamais ser feliz com outro alguém.
Quando se rompe com alguém que lhe roubou a identidade, tem-se a impressão de romper consigo mesmo e, convenhamos, nada poderia ser mais doloroso. Inicialmente é como se lhe faltasse um pedaço. Lidar com isso mais a abstinência de um amor tóxico, torna a ruptura uma tarefa árdua que só pode ser vencida compreendendo como tudo isso faz parte de um quebra-cabeças e identificando suas peças. Verá que é possível montá-lo e recomeçar, voltando a ser quem é no seu íntimo, mais livre, maduro, saudável e lúcido.
(Lucy Rocha)

