BENDITO DE MEU PAI
por Ricardo Maia
Haverá dias em que meus olhos estarão cansados e meus óculos não surtirão mais efeitos. Minhas mãos não terão firmeza para segurar talheres, copos e nem as mãos de quem vier me ajudar a caminhar.
Os dias serão mais cinza e mesmo em verão brilhante, estarão em um constante e opaco outono. O paladar estará comprometido e os mais requintados temperos terão o insosso sabor, já rotineiro pela ausência de sal e açúcar.
Haverá dias em que os netos substituirão as piadas e os programas de humor, arrancando incontidas gargalhadas e inúmeros relatos de como são espertos e inteligentes.
Serão tempos de músicas antigas que precisarão ser tocadas em alto volume; o que será escasso para não atrapalhar a rotina da casa. As verdades serão omitidas quanto ao resultado dos exames, os amigos que partem, as crises na vida dos filhos e o tratamento médico que não está dando certo.
Serão dias de silêncio e de contabilizar momentos extraordinários onde a respiração era mais forte, os cabelos mais escuros e o coração fortemente aquecido por desafios e conquistas.
Haverá dias em que não mais irei onde quero, mas onde me levarem; serei parte da disponibilidade de outros e minha agenda de cinco anos atrás, estará empoeirada na cabeceira da cama.
Porei meus conhecimentos à disposição de quem quiser saber e esteja disposto a degusta-los como uvas doces de uma rara colheita.
E apesar de receber poucas ou quase nenhuma visita, conheço alguém que prometeu estar comigo todos os dias. Nutrirei uma alma satisfeita e grata por ter quem me aceite, cuide de mim e esteja comigo nessa antessala da eternidade, onde o Bom Deus me espera para dizer: “Vinde Bendito de Meu Pai”.

