
- Sr. João da Silva...
Do meio da multidão, que estavam sentadas na sala de espera, uma mulher trans responde ao chamado.
Vejo risos e olhares de condenação... um senhor que aguardava na primeira fileira de cadeiras solta um comentário irreproduzível. A paciente adentra o consultório na velocidade da luz, visivelmente constrangida. A queixa era simples,um quadro de dor lombar, atribuído à sua atividade laboral.
No final do atendimento, pergunto:
- Como você quer que eu escreva seu nome na receita?
Ela olha desconfiada e me responde reticente:
- Pode ser Yasmin Victória?
Assim escrevo, e peço que vá fazer a medicação e retorne, após um período, para avaliar se houve melhora da dor. Assim que a paciente se levanta e sai, vou até à porta e digo bem alto:
- Yasmin, não esqueça de voltar, após a medicação. E desculpe a confusão que fiz com os nomes.
Dez minutos depois, Yasmin retorna ao consultório, com um bombom “serenata do amor” em mãos.
- Ué, já tá melhor da dor? pergunto.
- Eu tô melhor é da minha dignidade, doutor. Eu fui muito bem tratada, mas achei o olhar do senhor, triste. E dizem que os olhos são o espelho da alma. Posso dar um abraço no senhor?
Ganhei o dia. Não só porque ando mesmo, naqueles dias de pouca luz em que a gente faz um esforço danado para não deixar comprometer o trabalho, e um chocolate sempre cai bem nessas horas, mas principalmente porque senti no abraço acolhedor de Yasmin, a diferença que o respeito faz na vida nas pessoas. E ela fez muito mais diferença na minha vida que eu na dela, certeza.
