CHEGUE NA PAZ

8 de nov. de 2019

Nenhuma descrição de foto disponível.


Dia comum de atendimento num pronto socorro, lotado, vou até à porta do consultório, chamar o próximo paciente. 

- Sr. João da Silva...

Do meio da multidão, que estavam sentadas na sala de espera, uma mulher trans responde ao chamado. 

Vejo risos e olhares de condenação... um senhor que aguardava na primeira fileira de cadeiras solta um comentário irreproduzível. A paciente adentra o consultório na velocidade da luz, visivelmente constrangida. A queixa era simples,um quadro de dor lombar, atribuído à sua atividade laboral.

No final do atendimento, pergunto: 
- Como você quer que eu escreva seu nome na receita?

Ela olha desconfiada e me responde reticente:
-  Pode ser Yasmin Victória?  

Assim escrevo, e peço que vá fazer a medicação e retorne, após um período, para avaliar se houve melhora da dor. Assim que a paciente se levanta e sai, vou até à porta e digo bem alto:

- Yasmin, não esqueça de voltar, após a medicação. E desculpe a confusão que fiz com os nomes.

Dez minutos depois, Yasmin retorna ao consultório, com um bombom “serenata do amor” em mãos. 

- Ué, já tá melhor da dor? pergunto. 

- Eu tô melhor é da minha dignidade, doutor. Eu fui muito bem tratada, mas achei o olhar do senhor, triste. E dizem que os olhos são o espelho da alma. Posso dar um abraço no senhor?

Ganhei o dia. Não só porque ando mesmo, naqueles dias de pouca luz em que a gente faz um esforço danado para não deixar comprometer o trabalho, e um chocolate sempre cai bem nessas horas, mas principalmente porque senti no abraço acolhedor de Yasmin, a diferença que o respeito faz na vida nas pessoas. E ela fez muito mais diferença na minha vida que eu na dela, certeza.