CHEGUE NA PAZ

9 de out. de 2018

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Comportamento da Igreja 
nas Eleições de 2018

Nas eleições mais polêmicas e polarizadas da história do Brasil, falo sobre o não menos polêmico comportamento da igreja.

1. Seu comportamento nas eleições deste ano a muitos surpreendeu.

Entendo a surpresa. Jamais apoiei ou combati candidato. Todos estavam acostumados com essa neutralidade. Mas, nessa eleição houve algo diferente, que me obrigou a “sujar as mãos” me posicionando.

2. O que houve de diferente?

Um candidato usou o cristianismo para defender ideias radicalmente anti-cristãs. Além disso, obteve apoio institucional da igreja e pastores. Perante o país inteiro, o voto evangélico foi considerado decisivo para o sucesso da sua campanha.

3. Precisava fazer tanto barulho?

Sim. Sem a mínima dúvida. Por amor ao evangelho e aos milhões de brasileiros que não conhecem a Cristo. Alguém precisava se levantar a fim de dizer que o comportamento e parte dos valores do candidato são condenados pelas Escrituras, e que há cristãos que não votariam nele.

4. Em quê ele está equivocado?

Em jamais ter ser retratado das mais antidemocráticas declarações que fez ao longo de sua vida, muitas das quais, continua fazendo, e se utilizando de agressividade que a milhões causa perplexidade e indignação.

5. Pastores declaram que ele defende os valores cristãos.

Falta simetria ao seu discurso. Ele nada fala sobre alguns dos temas mais presentes na mensagem dos profetas, apóstolos e Cristo. Sou absolutamente cético quanto à sua agenda moral.

O fato de ele defender o que defende não alterará o comportamento de ninguém. Aquilo sobre o que ele não fala, entretanto, é justamente aquilo sobre o que, caso eleito, ele terá poder para fazer enorme diferença. Mudar a orientação sexual de um ser humano, impedir que na prática novos modelos de família sejam experimentados, fogem completamente do seu campo de influência.

Levar água encanada e rede de esgoto aos lares brasileiros, reformar o sistema prisional, construir creches e escolas públicas nas favelas, combater o flagelo da desigualdade social, permitir ao trabalhador acesso a uma rede pública de saúde decente, diminuir as mortes violentas de policiais e moradores de comunidade pobre; isso sim, ele terá caneta para fazer.

Vale a pena lembrar, que não estamos elegendo um rei, mas um presidente da República, dentro de um regime presidencialista de coalizão. Ele terá pela frente um Congresso Nacional, uma sociedade pluralista e movimentos sociais bem articulados.

A igreja equivoca-se ao esperar muito dele. Minha esperança está num dilúvio do Espírito Santo, que produza cristãos maduros, capazes de fazer diferença na cultura e na arena política.

6. Muitos reclamaram que você não bateu nos demais candidatos.

Não é verdade. Há anos tenho feito críticas severas ao Partido dos Trabalhadores. Organizei manifestações de rua nos governos Lula e Dilma, criticando os mais diferentes erros cometidos por eles. Nessa eleição, cobrei do candidato Haddad uma declaração pública de arrependimento pelos estragos causados pelo seu partido no nosso país.

Contudo, o Haddad não foi batizado no Rio Jordão. Não usa a fé cristã. Não tem o apoio institucional maciço da igreja. Repito. A questão teológica antecede à política.

7. Como assim?

Precisava ser feita uma defesa do evangelho. O apoio institucional da igreja carecia de ser severamente criticado.

Pense comigo. O comportamento do cristão é sempre racional. Ele sabe os motivos que o levam a fazer o que faz. Sua vida é movida pelo amor a Deus e aos homens. Esse sentimento regula todas as suas ações. A igreja menosprezou a Deus e aos não cristãos. Ela fez milhões tropeçarem. Chamou de candidato que defende os valores do cristianismo um homem que semeia uma cultura de violência. Ele exalta os crimes praticados durante o regime militar, celebra a memória de torturador, aprova o uso de tortura e afirma que, no seu governo, cada lar brasileiro terá uma arma de fogo. Isso é pauta do cristianismo?

Veja que ironia. A igreja ao apoiar candidato que supostamente defende os valores do cristianismo, fechou o caminho para Cristo a milhões de brasileiros. Não precisamos de um presidente que defenda a ética privada evangélica. Precisamos de cristãos vivendo o cristianismo e disseminando esses valores na cultura.

A causa maior da igreja é a conversão da humanidade. Homens e mulheres sentindo-se amados por Deus a partir da reconciliação levada a cabo por Cristo na cruz. A igreja desprezou sua missão mais importante. Ela deu apoio político acrítico a um candidato que milhões de brasileiros tem como inimigo da democracia. Um escândalo.

8. O que você tem a dizer sobre os estragos causados na igreja nessas eleições?

Uma desgraça. A igreja desrespeitou a diversidade de opinião entre seus membros. Escandalizou milhões de jovens cristãos, que não cessam de fazer contato comigo, declarando que o ar da igreja está irrespirável. Não se sentem mais em casa. Isso foi um crime. Fizeram do antipetismo sinal de compromisso com o reino de Cristo, cometendo o erro oposto daqueles que circunscreveram o compromisso ético cristão à agenda petista.

9. Como fica o seu voto no segundo turno?

O pior cenário aconteceu. A última coisa que queria para o Brasil era ver ambos os candidatos no segundo turno. Eles dividem a nação, num momento em que precisamos estar juntos para restaurar e reformar o Brasil. Não quero premiar ideias totalitárias, mas também não quero premiar a corrupção.

10. Muita gente não gostou da sua nota de agradecimento ao povo nordestino, após a votação de ontem…

Fiquei indignado com o preconceito manifestado nas redes socais. Nauseante. Algumas das pessoas mais sensíveis, inteligentes e humanas conheci no Nordeste. Não celebrei o voto do nordestino por força do apoio ao Haddad, mas, sim, por permitir ao povo brasileiro mais tempo para pensar, orar e cobrar respostas de ambos os candidatos para muitas perguntas que precisam ser feitas.

11. Quais?

"Haverá preservação das garantias constitucionais?", perguntaria para o candidato da direita. Para o da esquerda, indagaria, "vocês deixarão de corromper e se deixar corromper?" Para os dois também questionaria, "os senhores, caso eleitos, se comprometem a apresentar, após a posse, no decurso de 90 dias, seu programa de governo, acompanhado de metas mensuráveis e cronograma?”

12. Você tem apanhado muito…

Alguém ontem me perguntou: como está a sua consciência? Respondi, em paz. Contudo, nem por isso deixo de sentir tristeza pelo comportamento da igreja. Pastores e membros de igreja evangélicas têm me atacado pessoalmente. Falando pelas redes sociais o que poderia ter sido falado por telefone.

Não há uma só pessoa que tenha sido atacada por mim. Podem discordar das minhas ideias e veemência com que falo, mas não apontar para alguém a quem tenha insultado publicamente. Temo a Deus. Houve um único caso que acho que poderia ter agido diferente. Um amigo, que tem meu telefone, foi publicamente muito duro comigo. Disse a ele pelo Twitter, "num cafezinho você poderia ter dito essas coisas para mim. Bastava me ligar”. Tentei ligar para ele para pedir perdão, mas ele não atendeu.

13. O que você pretende fazer nos próximos dias?

Vou orar e ler as Escrituras. Conversar com amigos. Buscar ouvir o conteúdo da profecia. Continuarei a escrever e gravar vídeos, buscando falar mais sobre teologia do que sobre política. Tenho muito ainda o que dizer. O que houve nessas eleições é a prova cabal de que essa igreja precisa de conversão e reforma. Temo que Moisés esteja ocupando o púlpito no lugar de Jesus Cristo. Por isso, muito moralismo, muita esterilidade, muita estupidez, muita falta de simetria.