CHEGUE NA PAZ

13 de nov. de 2015


Você provavelmente deve ter ouvido falar da história do louco que numa radiosa manhã acendeu uma lanterna e correu para o mercado gritando sem parar: “Eu procuro Deus! _ Como havia um grande número de pessoas que não acreditavam em Deus, ele causou enorme divertimento. Como? Ele está perdido? Disse um deles. Ele extraviou-se como uma criança? Perguntou outro. Ou estará se escondendo? Ele tem medo de nós? Será que partiu para uma viagem marítima? Será que emigrou para terras desconhecidas? Gritavam eles às gargalhadas e em grande algazarra. O louco pulou para o meio deles e atravessou-os com seu olhar. 


“Para onde foi Deus?”, perguntou aos gritos”. Eu vou lhes contar! Nós o matamos - vocês e eu! Nós todos somos os seus assassinos! Mas como o fizemos? Como fomos capazes de beber todo o oceano? Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? O que fizemos quando destacamos esta terra do seu sol? Para onde ela se move agora? E para onde nós nos movemos? Para longe de todos os sóis? Não estaremos nos arremetendo incessantemente, para os lados, para diante, em todas as direções? Existirá ainda um acima e um abaixo? Não estaremos vagando como que perdidos num imenso nada? Não estará o espaço vazio respirando sobre nós? Não terá ele se tornado mais frio? Não estarão as noites se tornando cada vez mais escuras? Seremos obrigados a acender lanternas ao amanhecer? Não estamos ouvindo o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Deus está morto! E nós o matamos! E agora? Como nos consolaremos, nós os assassinos dentre os assassinos? O mais santo o mais poderoso dentre todos os que o mundo jamais possuiu até aqui, esvai-se em sangue sobre o nosso punhal – quem limpará o sangue das nossas mãos? Existirá algum tipo de água com a qual possamos nos limpar? Que tipo de ilustrações, rituais e jogos sagrados precisaremos inventar? Não terá este feito magnitude grande demais para nós? Não seremos nós obrigados a virar deuses, apenas para parecermos dignos disso? Jamais houve um evento tão grande – e um tal relato; todos os que nascerem depois de nós pertencerão a uma história maior do que qualquer outra até aqui! 

“Neste ponto, o louco silenciou e olhou novamente para seus ouvintes; eles também faziam silêncio e o olhavam surpresos. Por fim, ele atirou sua lanterna ao chão; ela se partiu em diversos pedaços e extinguiu-se. “Eu cheguei muito cedo”, disse ele, ainda não é chegado o momento apropriado. Esse acontecimento prodigioso ainda está a caminho, está viajando – ainda não chegou aos ouvidos dos homens. Os relâmpagos e o trovão precisam de tempo, mesmo depois de realizados, para serem vistos e ouvidos. Este feito ainda está tão longe deles como a mais distante das estrelas – e apesar disso eles o fizeram”. 


Esse texto foi baseado em Nietzche o grande filósofo niilista. Estamos mesmo vivendo tempos duros e o relacionamento entre as pessoas está áspero porque os corações de muitos se tornaram impermeáveis. Tudo isso aconteceu porque deliberamos a cerca de 200 anos que Deus não fazia mais parte de nossas vidas. Que o transcendental era coisa de pessoas frágeis, fantasiosas e ingênuas. Porém, o sagrado é o limite do profano, é o que o sustenta, dignifica e justifica. A espiritualidade é o lustro e o lastro da razão, Tanto é verdade que a beleza não é reconhecida pela razão, mas pelo espírito, e ao alijar Deus do mundo ficamos órfãos de beleza, brandura, valores humanos e espirituais, criatividade a serviço do Bem e reverência pela vida. Mas, nós podemos transmutar os efeitos consequentes dessa separação entre o espírito e o mundo. Podemos outra vez unificar o conhecimento fragmentado e dar um salto de qualidade, ter um "up grade" de consciência.

Quando escolhemos conscientes do que queremos para nós e para o mundo nos tornamos parceiros de Deus na construção do nosso destino. Até porque a melhor maneira de construir o futuro é viver plenamente e dignamente o momento presente. Durante esse processo de criação o coração precisa ser ouvido, embora muitas vezes ele pareça pouco confiável, na realidade tem uma enorme capacidade de avaliação de fatos e dados, e além do mais tem a vantagem de ultrapassar limites do pensamento racional, e voar, ilimitado desconhecendo fronteiras.

(Marilu Martinelli)