Está na hora de abraçarmos nossa criatividade, seja o que for que isto signifique para cada um de nós. Para isto, não precisamos ser um Picasso ou um Beethoven. Não é necessário nenhum “talento” especial, nenhum padrão a ser alcançado. O simples fato de nos permitirmos observar e acolher a beleza do mundo natural, o olhar comovente de um animal ou a respiração suave do nosso filho que dorme – todas estas coisas e muitas mais nos conectam com a beleza criativa do universo, que está sempre demonstrando suas maravilhas impressionantes, mesmo quando permanecemos alheios, cabeça baixa, correndo no nosso dia-a-dia. Neste sentido, criatividade não é algo que fazemos, mas um modo de ser.
Ao apreciarmos os diversos tons de verde das árvores, a simetria dos reflexos numa vitrine, o amor com que foi feito um jardim por onde passamos, nós nos alinhamos com o poder da beleza que desperta o espírito criativo.
Com muita frequência somos levados a crer que criatividade exige talento, dons especiais e um produto final cujo valor seja afirmado pelos outros. Na verdade, criatividade é simplesmente nosso corpo fazendo o que faz para nos manter vivos, e nosso coração tentando se conectar com o mundo à nossa volta. Esta reação do coração aos momentos de beleza é o nosso espírito se elevando para se unir a eles, para reivindicar seu espaço na dança criativa do universo.
Os reinos internos estão iluminados agora, oferecendo-nos suas riquezas e revelando aspectos antes obscurecidos de nossa psique e espírito. Nossa disposição para acolhê-los e explorá-los será recompensada com a apreciação cada vez mais intensa, tanto da complexidade quanto da simplicidade na nossa paisagem interior. Pode ser que tenhamos vontade de trazê-la para fora, de descrever por escrito nosso caminho através dela, de dançar, correr ou rir com a nossa alma. Este processo é pessoal, seus frutos são privados, mas suas consequências irradiar-se-ão por toda a nossa vida à medida que o espírito criativo despertado alcançar maior influência na consciência coletiva.
Independentemente da força das emoções profundamente enraizadas, ela nos incentiva a escolher um caminho diferente e fazer dessa escolha a primeira de muitas que desencadearão novas possibilidades através da incorporação do nosso espírito criativo.
A adoração do eu e do outro não são mutuamente exclusivas para ela; ela só consegue estar verdadeiramente satisfeita num relacionamento que envolva o poder criativo do amor por si mesma. Esta Vênus precisa brilhar e precisa que brilhemos junto com ela, assumindo nossa capacidade de recriar a nós mesmos, nossas vidas e nosso mundo, um momento mágico de cada vez.
Mas a liberdade de simplesmente ser o que somos na totalidade da nossa complexidade e na simplicidade da nossa divindade – esta é a verdadeira libertação, o voo da fênix das chamas da insegurança e medo egóicos.
Nosso destino coletivo nos chama agora, exortando-nos a nos posicionarmos a favor da verdade, a acolhermos as possibilidades e permitirmos o aparecimento de novas maneiras de viver em comunidade. Não podemos sobreviver sozinhos neste planeta, nem podemos fazer isso explorando seus habitantes para nosso próprio proveito, mas sim reconhecendo-os como a centelha divina que são. Deste modo nós respeitamos o espírito criativo que irrompeu há eons e vive em cada um de nós.
Observar o mundo desta forma é um ato de poder, um momento de rebeldia contra a pequenina mente que enxerga vocês ali e eu aqui, competindo por recursos, por segurança, pela própria vida. A vida não é uma competição, mas um esforço conjunto, no qual a linha de chegada é tal que nos faz vitoriosos a todos, iguais em valor e respeitados como centelhas da fonte sagrada que foi acesa há milênios atrás e continua queimando e brilhando através das eras.
Somos indivíduos únicos e, ao mesmo tempo, partes minúsculas de um todo infinito. Podemos acessar a identidade, a personalidade e a presença individual ao lado da dissolução do eu num campo coletivo que conecta a todos nós. O processo de evolução consciente necessita da intimidade com esses dois aspectos da experiência humana. Entretanto, o desejo de nos afastarmos da confusão da vida humana e das artimanhas da identificação com o ego podem resultar num voo para dentro do “espírito” sem o necessário enraizamento no mundo da forma, onde nosso corpo – a âncora do espírito – reside. Isto não é o despertar, mas a negação de uma encarnação e todos os seus desafios. De fato, pode ser difícil olhar através da insensatez de um mundo enlouquecido, mas é olhando através dele que fazemos parte dele. Precisamos viver nosso despertar – com seus momentos de revelações, de liberdade e de passagens escuras de isolamento e desafio – aqui neste mundo, não em algum lugar fora dele.
Como os grandes Mestres Zen nos lembram, o despertar não é uma experiência agradavelmente fina, clara e confortável. É uma experiência confusa, difícil, emocionante, libertadora e aterrorizante na mesma medida! Ela nos ensina a ser várias coisas em um só espaço, a viver com o paradoxo, a abraçar a contradição e a arriscar tudo para ser livre.
Não podemos depender exclusivamente de um momento de inspiração para realizar nosso potencial, nem da emoção certa para trazer à tona tudo o que podemos ser. Precisamos também nos comprometer com o processo, trilhar o caminho através da escassez e da abundância e fazer o que for necessário para manifestar no mundo material os prazeres da nossa mente e coração.
Aqui se encontra a chave para a criatividade: um relacionamento inteiro e equilibrado conosco mesmo, com os outros e com o mundo à nossa volta, que envolve e aceita os paradoxos e celebra a diversidade dentro e fora. Nós realizamos as mudanças não apenas reconhecendo que fazemos parte do todo, mas também nos destacando dele, para irradiarmos a luz exclusiva da nossa individualidade.
A tapeçaria iridescente da humanidade, repleta de texturas e tons diferentes, é tecida através de cada um de nós sendo o que é, compartilhando nossos dons, sendo honestos sobre nossas fraquezas e nunca desistindo do potencial que nós seres humanos temos de ajudar uns aos outros, transformando o mundo enquanto por aqui passamos.
Sarah Varcas www.astro-awakenings.co.uk

