Não há tristeza que não passe. Pôr do sol que não termine. Dias nublados que não sejam clareados depois. Chuva que não cesse. Dor que não acabe. Não há felicidade
que dure eternamente. Segredos que não se revelem. Sorriso que não se
transforme. Café que não esfrie. Fumaça que não se desfaça. Aromas que
não se espalhem. Não há nesse mundo lembrança dolorosa que não seja
curada. Palavras que não sejam diluídas no tempo. Ninguém se despede
deixando uma vaga eternamente inabitável. Nem todo silêncio é
eterno. O que foi dito, um dia não mais será. Tudo se desfaz, recomeça,
se transforma. Tudo se traga, bebe, engole, vomita. Se indaga e passa ou
serenamente ou naturalmente ou exasperadamente pela vida. Ninguém e
nada é prisioneiro da materialidade infinita. E ninguém vive encarcerado
sem um dia, uma tarde, uma horinha, escapar pela vida. E nem que seja
por descuido, a gente se desequilibra e depois se harmoniza.
(Ita Portugal)

