As relações lapidam o homem
“A prática do zen-budismo é como colocar pedras dentro de uma jarra e sacudi-la. As pontas, ao se ralarem, se desfazem. Quem fica redonda primeiro não fere nem é ferida.` Com estas palavras a abadessa do Mosteiro de Nagoia, no Japão, me recebeu pela primeira vez. Aoyama Shundo Docho Roshi não perde tempo. Desde o primeiro encontro, já ao cumprimentar, ensina e orienta. Foi assim comigo.
Eu tinha 36 anos, havia me tornado monja fazia poucos meses e me considerava hábil para lidar com qualquer situação. Afinal, eu me entendia redonda. Esse talvez seja nosso erro mais comum: acreditar que já estamos prontos. Nas dificuldades de relacionamento no mosteiro – como em qualquer lugar do mundo, ali também acontecem conflitos provocados por ciúme e competição – , comecei vagamente a me questionar. O que a mestra estaria querendo dizer com sua história? Suas palavras ficaram gravadas em mim.
A vida comunitária, quer num mosteiro, na família, quer entre colegas e amigos, é sempre uma arte a ser descoberta e reaprendida. Sair de si e compreender a tudo e a todos é difícil. Geralmente achamos que fazemos isso, e que são os outros que não nos compreendem, não nos respeitam, não nos consideram. Outros? Que outros, não é? Mas cada vez que nos achamos perfeitos, superiores a qualquer outro ser, nosso tapete é bruscamente puxado. O local da queda, no entanto, é o local de onde nos levantaremos. Com arestas mais aparadas. Lembre-se: a prática é de pedras dentro de uma jarra batendo uma nas outras; não há para onde fugir.
Onde quer que estejamos, encontraremos rochas pontiagudas que baterão contra nós. Quando nos arredondamos, quando não temos mais pontas, quando não é necessário se defender, os ataques, as provocações apenas passam e não deixam marcas. Não significa que deixamos de sentir a ofensa. Nem que não devemos fazer nada a respeito. É preciso, sim, nos manifestarmos sobre as injustiças, as violências, os abusos. Mas isso pode ser feito com sabedoria e tato. Quantas vezes não fui e ainda sou como uma pedrinha pontuda incomodando e sendo incomodada?! Arredondar o gesto é um treino que pode levar anos. Talvez a vida toda.
As palavras da mestra Aoyama Roshi passam a fazer sentido. Para aparar nossas arestas, é preciso conhecer-se a si mesmo. O caminho a que me dedico para isso é o zazen. Essa prática da meditação sentados nos ajuda porque permite ver a nós mesmos e a respirar antes de reagir. Uma pequena pausa nos permite escolher a resposta que queremos dar ao mundo. Claro, não é apenas o zazen.
Os ensinamentos do budismo também inspiram a nos manifestarmos de forma adequada. Erramos e falhamos muitas vezes, mas cada erro, cada falha é uma oportunidade de corrigir, de nos percebemos ainda insuficientes e de redobrarmos a atenção para nossos pontos mais fracos. Ajuda a retomar a simplicidade de reconhecer que ‘inter-somos’, que estamos interconectados. Tudo que nos acontece, tudo que vemos, tudo que tocamos, tudo que é nossa vida é a apenas nossa vida. Cuidemos, pois. Cuidando, seremos cuidados. As pedras rolam e ficam suaves, macias, redondas.”
Texto: Claudia Dias Baptista de Souza
monja Coen Sensei - Bons Fluidos
