CHEGUE NA PAZ

6 de jan. de 2013

Loucos e Santos


Escolho meus amigos não pela pele ou outro 
arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador 

e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito 

nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem

 de mim louco e santo. 
Deles não quero resposta, quero meu avesso. 
Que me tragam dúvidas e angústias 
e aguentem o que há de pior em mim.
Para
isso, só sendo louco. 

Quero os santos, para que não duvidem 
das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada 

e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, 

quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, 

não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: 

metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, 

nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que 

fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, 
mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância 

e outra metade velhice! 
Crianças, para que não esqueçam o valor 
do vento no rosto; e velhos, para que
 nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos 

e sérios, crianças e velhos, nunca 
me esquecerei de que "normalidade" 
é uma ilusão imbecil e estéril.

 (Marcos Lara Rezende)