17 de jul. de 2022



Me calo pra me poupar ou me calo para engolir? Eis a questão.

Quem nunca se calou por medo do conflito?

Quem nunca omitiu a própria verdade em detrimento do conforto alheio?

Quem nunca disse sim querendo dizer não e vice versa?

Não existe verdade absoluta, sabemos.

Mas existe sim a verdade de cada um e se ela não está sendo expressa com clareza, é porque dentro desse adulto existe uma criança com medo do abandono, da rejeição, da perda, da dor.

Aquele que na infância foi podado ou não foi ouvido e atendido em suas necessidades emocionais, tem dificuldade em comunicar seus sentimentos ou a comunicação se torna impositiva, violenta.

E isso se apresentará em todas as esferas da vida, principalmente nas relações mais íntimas, pois o que vivemos em nosso sistema familiar de origem tende a se repetir de uma forma mais intensa quando crescemos.

Enquanto não dermos ouvidos e atenção às nossas vozes internas, continuaremos escravos das nossas feridas.

Enquanto escolhermos não olhar para as desordens que vem nos acompanhando anos a fio, sequer iremos reconhecer a nossa verdade, a individual.

Continuaremos reproduzindo as verdades que nos contaram, as verdades coletivas que, geralmente, são carregadas de rótulos, padrões, dogmas e estereótipos.

E permaneceremos ou calados ou agressivos, ambos adoecidos, até que possamos nos conhecer a fundo e curar desde a raiz tudo aquilo que fomos impedidos de ser e dizer.

Quem cala consente? Nem sempre.

Se me calo para me poupar, estou no meu adulto, estou consciente de que a minha verdade não é a verdade que cabe ali, naquele momento.

Calo porque compreendo que a minha verdade já foi exposta e respeito a verdade do outro sem tentar convencê-lo da minha.

Calo porque em diálogos, nem sempre todos estarão receptivos a novos pontos de vista.

Calo porque respeito as crenças, as dores, as escolhas e destinos alheios.

Mas se me calo onde deveria me expor, se calo para engolir uma verdade que deveria apresentar, se me calo sempre, sem estabelecer limites, estou sob a esfera da minha criança, que se frustra e sufoca, perpetuando as experiências das quais deveria se libertar.

(Juliana Nishiyama)