10 de out. de 2019


Relacionamentos Distorcidos 

Uma das razões pelas quais as mulheres custam a deixar as relações em que não se sentem amadas ou em que sofrem maus tratos é porque, quando se apaixonam por um homem, ligam-se com a criança assustada que há no interior dele.

Nós mulheres temos tanta capacidade para a empatia que confundimos o amor de casal com o maternal e queremos ajudar essa criança inocente a superar os seus traumas e as suas carências.

Acho que a muitas sentem ternura pela fragilidade da masculinidade patriarcal: de alguma forma nos compadecemos dos seus medos, de tudo o que lhe fez sofrer para chegar a ser um macho, da sua incapacidade para mostrar afeto, da sua falta de habilidades... para gerir as suas emoções, da sua lerdeza na hora de resolver conflitos, dos seus problemas com a autoestima e o ego.

Justificamos seu comportamento pensando que esse menino pequeno e indefeso já sofreu tanta violência , que é "normal" que a reproduza e a projete em cima de nós. Pensamos que ele sofre sendo violento, e acreditamos que o pobrezinho não pode evitá-lo.

Nos confortarmos pensando que o nosso amor o curará, que nós somos muito fortes e podemos ajudá-lo a mudar, que quando conseguir se conectar com a sua criança interior se libertará do machismo como por arte de magia. Pura arrogância e ingenuidade feminina.

Acreditamos que os homens machistas são boas pessoas e que não nos fazem mal por prazer, mas porque são homens, e os homens são assim, muito limitados, violentos e inseguros. Acho que é por isso que muitas vezes nos colocamos condescendentes quando querem ser o centro das nossas vidas, quando exigem toda a atenção, quando pedem a gritos uma entrega total e incondicional pela nossa parte.

Sabemos que precisam sentir-se poderosos e importantes, por isso muitas vezes lhes fazemos acreditar que o são, para aliviar um pouco esse complexo de inferioridade e superioridade que lhes faz ser tão dominantes e inseguros.

Bem, isto é uma armadilha mortal para nós: a criança mutilada não vai se curar, o homem violento não vai se transformar em uma boa pessoa só com o nosso amor.

Os homens têm de trabalhar as suas masculinidades patriarcais, os seus traumas e os seus medos, o seu machismo e a sua violência, a sua deficiência emocional, a sua necessidade de dominar, a sua necessidade de ter ao lado uma esposa-Mãe-empregada leal que lhes aguente e lhes assegure de todos os desafios mundanos.

E nós temos que ter claro que merecemos companheiros que nos saibam querer bem. Temos que deixar de ser tão compreensivas, colocar a atenção em nós, e nos conectarmos com a menina que carregamos dentro de nós, para protegê-la dessas crianças violentas e inseguras. Porque se você não cuida dela, quem vai cuidar dela? Não permita que nenhum homem machista lhe faça mal, que vandalize a sua autoestima, que se aproveite dela e da sua capacidade para amar.

Aquela menina que você tem dentro, espera pelo seu carinho, acolhimento e amor. Ela representa uma parte de todas nós!

Quando você cuida dela, você cuida de todas nós.

Quando você se liberta, nós também nos libertamos um pouco mais!

Somos todos Um!

(Sandra Maria) - Texto Adaptado