CHEGUE NA PAZ

16 de jan. de 2013

O tao das flores e do sol


"Ver o mundo num grão de areia

E um Céu numa flor selvagem,
Ter o infinito na palma da mão
E a Eternidade numa hora."
- William Blake

O motivo pelo qual tenho certeza da existência de uma Inteligência Absoluta como motivo de toda existência é que o meu coração sabe disso! Não preciso de nenhuma teoria ou prova, sinto em mim! Há duas coisas que podem fazer alguém perceber um amor infinito na existência: o brilho do sol e o abrir das flores.

Quando uma flor abre suas pétalas, é um momento mágico, verdadeira festa da natureza. Nesse momento único, curvo-me à sabedoria que dá vida a natureza daquela flor expandida. Penso que o universo é um imenso lótus de Deus em eterna florescência. Quando assisto ao momento da aurora rompendo as trevas da madrugada, pego-me extasiado diante de tal maravilha.

No momento do crepúsculo, quando o Rei Sol descende na linha do horizonte, percebo-me admirado com os tons de dourado, laranja e vermelho inundando minha visão. Às vezes, as lágrimas desse momento refratam a luz solar e vejo várias outras cores dançando à minha frente.

Sim, há um amor incomensurável como causa dessa beleza. É o mesmo amor que sinto em meu coração. Por isso, a ressonância com a luz do sol e as flores. Não posso provar a existência desse amor absoluto e nem demonstrá-lo em uma academia cheia de céticos irritadiços e intelectuais arrogantes espumando uma pretensa ciência devastadora da própria natureza.

Não falo de um cara branco, velho e barbudo sentado num trono celestial e nem de um ser que julga os outros e os manda para o paraíso ou o inferno. Sequer imagino aquela noção antropomórfica e convencional do Criador que os religiosos inventaram por ignorância.

Estou falando do amor que inventou 
aquela flor e aquele brilho do sol. 


Que homem poderia inventar algo igual?
Que cientista poderia elaborar o amor?
Que religioso poderia fazer abrir aquela flor que admiro?
Que religião ou doutrina poderia me fazer 
sentir um amor vivo pulsando em tudo?

Serei eu um místico só porque amo e tenho coragem e discernimento para assumir esse amor? O intelectual que elabora técnicas, esquemas e nomenclaturas opulentas, que são incapazes de fazer alguém sorrir e admirar o brilho do sol e a beleza das flores, é realmente inteligente ou é apenas alguém técnico e pretensioso exaltando o próprio ego?

Há alguns intelectuais capazes de explicar os mecanismos de muitos eventos da natureza e da consciência. Porém, são incapazes de beijar, abraçar e compreender os outros. São intelectuais, mas são tolos! Entendem esquemas e técnicas, mas não compreendem as pessoas. São críticos de tudo, mas tomam de goleada da beleza da flor e dos raios de sol.

E o religiosos, empacados em seus dogmas? 
Conseguirão ver o divino na flor? 
Conseguirão imaginar que o sol brilha mais 
do que seus livros pesados de dogmas?


O Deus que sinto não é passível de ser aquilatado pela mente humana. Não pode ser capturado pelo intelecto sequioso de provas e nem pelo coração bloqueado de fanatismo religioso.


No sorriso da criança, nos raios do sol e na luz da lua, 
nas flores, no beijo, no abraço, na meditação, no amor, 
na música, na simpatia e na lucidez 
de sentir além dos pensamentos convencionais, 
está a prova da existência do divino.

Dirá o intelectual: "Isso é misticismo!"
Afirmará o fanático religioso: 
"Você não entendeu o nosso livro sagrado!"
Por sua vez, a luz do sol e as flores nada dirão. 
Não é preciso. Sua beleza já diz tudo.

A essa altura, lembro-me das palavras do sábio chinês
 Lao-Tzé (Tao Te King; Séc. VI A.C.):
"Havia algo amorfo e perfeito
antes do universo nascer.
Era sereno. Vazio.
Solitário. Imutável.
Infinito. Eternamente presente.
É a mãe do universo.
Por falta de nome melhor,
eu o denomino Tao.
Ele flui através de tudo,
dentro e fora, e volta
à origem das coisas."

Também lembro-me do sábio Kabir (Índia, Séc. XVI):

"O rio e suas ondas são um mesmo fluxo:
qual a diferença entre o rio e suas ondas?
Quando se crispa a onda, é a água que se eleva;
e quando a onda cai, é novamente e ainda água.
Dizei-me, Senhor, a diferença:
por ter sido denominada onda, 
não mais devemos considerá-la água?

No seio do Supremo Brahman, os mundos alinham-se como contas:
contempla esse rosário com os olhos da sabedoria."

Por aqui, finalizando esses escritos, digo aos leitores:
Não sou místico, religioso ou técnico em coisa alguma.
Estou mais propenso ao sorriso, ao beijo e ao abraço do que a qualquer esquema humano disso ou daquilo.
Leio muito, sempre de mente aberta. Mas, também beijo, abraço e estou sempre procurando um motivo para rir.

Sou capaz de compreender vários mecanismos da consciência e seu parapsiquismo e espiritualidade nata, por exemplo. Mas, sem piadas, nem pensar! É que há um amor sutil que me possuiu e não tenho mais como escapar dele ou negá-lo. Por isso, escrevo.

Não pretendo provar coisa alguma, mas espero rir muito, principalmente dos intelectuais cheios de esquemas e nomenclaturas bitoladas e dos religiosos cheios de livros pesados e pouco amor.
Olho para esse pessoal e prefiro a flor e a luz do sol. Nada mais é preciso.


Lembro-me da sabedoria de Sri Aurobindo em "Savitri", sua obra mais inspirada (Índia, primeira metade do século XX):

"Se no vazio sem significado a criação surgiu,
Se de uma força inconsciente a matéria nasceu,
Se a vida pode se erguer na árvore inconsciente,
E o encanto verde penetrar nas folhas esmeraldinas,
E seu sorriso de beleza desabrochar na flor,
E a sensação pode despertar no tecido, no nervo e na célula,
E o pensamento apossar-se da matéria cinzenta do cérebro,
E a alma espiar de seu esconderijo através da carne,
Como não poderá a luz ignota se lançar sobre o homem, 
E poderes desconhecidos emergirem do sono da natureza?
Mesmo agora, insinuações de uma Verdade luminosa como estrelas,
Erguem-se no esplendor da mente lunar da ignorância;
Mesmo agora, o toque imortal do Amante sentimos,
Se a porta da câmara apenas estiver entreaberta,
O que então pode impedir Deus de furtar-se para dentro,
Ou quem pode proibir seu beijo na Alma adormecida?"

Há um amor que é a causa de tudo!
A luz do sol e as flores me mostram isso e 
eu aceitei lucidamente!
Não rezei, só fiquei admirado.
Não vi um velho barbudo lá nos céus 
me julgando, só vi a flor abrindo e saudando a luz solar. 
E isso me bastou!
Meu coração agradeceu e também tornou-se 
uma flor aberta e cheia de brilho.
Não precisei que algum intermediário humano, 
sacerdote de alguma religião ou técnico de alguma área consciencial, me explicasse o que apenas 
uma flor já me mostrou.
E sei, também, que nenhum deles é mais bonito 
do que a aurora ou o entardecer.
Por isso, digo a vocês: Não adianta nada estudar 
temas espirituais, conscienciais, e ser incapaz 
de maravilhar-se com eventos simples da natureza.
De que adianta estudar com afinco e não sorrir mais?
De que vale ser técnico nisso ou naquilo, e ao mesmo tempo 
ser chato pra caramba, ter medo de beijar, 
sorrir e abraçar?
Ainda sou mais a flor e a luz do sol!

Encerro esses escritos novamente com a inspiração do sábio Kabir:
"A harpa deixa escapar murmúrios musicais;
e segue a dança, porém sem pés ou mãos.
Ela é tocada sem dedos, é escutada sem ouvidos;
pois Ele é o ouvido, e Ele é o ouvinte.
A porta está cerrada, mas o interior
recende a perfume: aí acontece
o encontro que ninguém vê.
O sábio o compreenderá."

PS: A flor me disse espiritualmente: 

"Amigo, escreva e fale do amor que os homens esquecem. 
Deixe que a vida leve esses escritos a quem de direito. 
Há um perfume invisível neles. 
Percebendo-o, muitos corações reacenderão 
as chamas espirituais e voltarão a sentir o toque do infinito. 
Eles saberão!
(Esses escritos são dedicados ao mestre Sri Mahendra Nath Gupta, conhecido como mestre Mahasaya - Sri Ma, fiel escudeiro dos ensinamentos de Paramahansa Ramakrishna e um grande amigo espiritual nas lidas da cura).

PAZ E LUZ!

- Wagner D. Borges
(Ser humano, com qualidades e defeitos, dono de uma imensa biblioteca, mas que não fica preso ao que lê e nem acha que sabe muito mais do que aquilo que a flor lhe ensinou).