CHEGUE NA PAZ

26 de fev de 2016


AS RELIGIÕES TRIBAIS

Oh Deus, perdoa os três pecados 
que se devem às minhas limitações humanas:

Tu estás em toda parte, mas 
eu Te adoro aqui neste templo;
Tu não tens forma, mas 
eu Te adoro nestas diferentes formas;
Tu não precisas de louvor, mas 
eu Te ofereço estas preces e louvores. 

(Oração hindu)

Infelizmente algumas pessoas insistem em encarar as religiões tribais com certo menosprezo, elas esquecem de que essas práticas místicas tribais, remontam a três milhões de anos ou mais. Eu ousaria dizer, que foram as primeiras manifestações legítimas da sede de transcendência, inerente a todos os seres humanos. 

Elas são consideradas tribais porque os agrupamentos humanos eram pequenos, e são chamadas primitivas porque surgiram primeiro, eram ágrafas pois não havia alfabeto, e a escrita era desconhecida. A transmissão oral de valores, costumes e conhecimento caracterizam as religiões tribais, assim como o culto animista, e a reverência à natureza. Essa cultura religiosa oriunda de tempos imemoriais persiste principalmente na África, Austrália, Sudeste Asiático, ilhas do Pacífico, Sibéria e populações indígenas das três Américas. No Extremo Oriente, o culto aos seres da natureza e aos ancestrais, pode ser encontrado no taoísmo chinês e no xintoísmo japonês e no xamanismo tibetano, tailandês e vietnamita. São religiões históricas, que permaneceram próximas da ancestralidade, da natureza, e de suas raízes tribais. 

Essas expressões da espiritualidade nos permitem vislumbrar a mais antiga forma de religiosidade humana. Podemos estar certos que independente de preconceitos separatistas enraizados no colonialismo europeu, resquícios dessas tradições espirituais ainda sobrevivem, e pulsam como traços psíquicos nas regiões abissais do inconsciente coletivo. 

É incontestável que esses povos tribais conservaram valores, que as civilizações urbanas e industriais desprezaram ao longo do caminho. A organização social e as funções humanas foram mudando cada vez mais a medida que as sociedades cresceram em numero de indivíduos, e tornaram-se mais complexas. 

Separamos o sagrado do secular no nosso cotidiano. E pretensiosamente criamos o conceito de que as manifestações históricas e religiosas das civilizações posteriores são mais evoluídas que as primitivas. Isso revela apenas o quanto nos distanciamos da linguagem unificadora do espírito. Para as religiões da natureza não existe separação entre o espírito e a existência material, essas formas de culto sentem e vêm o mundo como único, e essa unicidade pode ser experimentada e deve ser reverenciada. Elas buscam mais do que a adoração, buscam a identificação com o sagrado. Seus adeptos não se sentem separados da natureza, eles sentem que são parte integrante dela. 

Mircea Eliade, renomado estudioso e pesquisador romeno, chega a afirmar que a espiritualidade dos povos arcaicos era vivenciada de maneira mais legítima e natural do que a vivida através das religiões institucionalizadas. A transmissão oral é muito mais rica e versátil que a escrita, razão pela qual não existe fundamentalismo nas tradições ágrafas. Quando o conhecimento é transmitido oralmente os ensinamentos oferecidos fazem parte da vida de quem ensina, passa pelo filtro da alma de quem transmite, e é enriquecido pelas experiências dessa pessoa. 

As chamadas religiões históricas também utilizam a oralidade além da escrita, mas são religiões do Livro, nos livros sagrados estão seus fundamentos estruturais. Porém, as tradições tribais confiam mais na memória vivenciada e compartilhada pela sabedoria dos ancestrais. Elas incorporam a memória da sua tradição e criam uma identidade cultural vivenciada, o que confere maior veracidade e atualidade aos ensinamentos. Já os adeptos das religiões institucionalizadas confiam mais nas escrituras sagradas do que na transmissão oral e vivenciada, por isso utilizem a doutrinação e a catequese. Nas religiões tribais o conhecimento é transmitido diretamente da boca amorosa e reverente, para o ouvido sequioso e receptivo. 

A busca pela transcendência é universal e os povos a expressam de acordo com sua geografia, cultura e mitologia.

(Marilu Martinelli)


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